RESSACA * ENTREVISTA: Miranda

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Carlos Eduardo Miranda apareceu no cenário nacional no início da década de 1990, capitaneando o selo Banguela. Por lá passaram Raimundos, Jorge Cabeleira, Pato Fu e algumas outras bandas legais. Mas Miranda hoje é pop e o jurado mais carismático do programa “Ídolos”, cópia brasileira do “American Idols” – que, para surpresa de muita gente, é inspirado no Marcos Frota.

Mas o que pouca gente sabe é que Miranda tem uma história pra lá de sórdida antes de chegar ao estágio de ser reconhecido na rua e não ter mais como fugir dos credores. Crítico musical e de filmes pornô, um quase ator que não sabia rebolar, redator dos álbuns de figurinha do “Amar É” e do Freddy Krueger e vocalista de uma banda de rock que, a pedidos do público, teve vida curta.

Em Belém para um debate sobre o cenário da música independente e para a segunda edição do festival Se Rasgum no Rock, Miranda bateu um papo com os jornalistas Tylon Maués, Rafael Guedes e Vladimir Cunha, de Ressaca Moral, enquanto aguardava por um almoço que tardava a surgir. “Tô passando nas frituras véio. Tenho que me cuidar”, dizia. Mas, polêmico, ao dar a entrevista que segue, matou sozinho um pratão de bife à cavalo e olhava feio pra gente toda vez que tentávamos roubar uma batatinha. Assim que prometemos não mexer mais no seu prato e ligamos o gravador, Miranda soltou a língua e falou coisas que nos deixaram ruborizados.

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A primeira aula de teatro que eu tive eu entrei na faculdade por causa dela. Eu sabia que a primeira aula era foda. Chegava ali, todo mundo botava a venda…
Tylon Maués– Pelado?
Aquelas roupas de hippie da época era quase pelado. Aí tinha que descobrir quem era a outra pessoa só pelo tato. Tinham três homens na aula, vinte mulheres. Foi muito massa.
T – Não rolou uma trapaça?
Mas nem precisava, cara, era só parar do lado da pessoa que você ia apalpar. A menina ali dando sopa e tu “Ê beleza…”
Vladimir Cunha – O Tylon fazia dança na faculdade.
T – Isso, com o Mestre Borracha.
Rafael Guedes – E tu aguentou esse esquema, cara?
Aí eu fiquei na faculdade até o dia que eu cheguei na aula e o professor mandou todo mundo ficar de quatro rebolando a bunda pra galera. Eu fui embora no mesmo dia.
V – Então tu não levou a coisa adiante…
Ah, cara, ficar de quatro rebolando a bunda, porra!
R – Ei, mas isso é arte.
T – Não aconteceu de você em casa e ficar de quatro se olhando no espelho e rebolando?
Eu sou aquele cara que se eu me vestir de mulher, maquiadão, bem gatinha, os caras vão olhar “Olha lá o Miranda. Pô, homem, do caralho, vestido de mulher”. Não tem jeito, cara.
V – Então tu cortaste a carreira de ator no meio?
Não era pra eu ser ator. Só queria ver como era o negócio. É porque naquela época era o seguinte: mulher pelada era proibido em qualquer lugar, menos no teatro. Não podia no cinema porque naquele tempo não podia aparecer pentelho. Na revista só tinha peito, e já era muito. No teatro não. O pessoal ficava pelado ali na frente. Mais perto pra tu ver mulher nua do que em teatro só no puteiro. Então eu comecei no teatro direto. Aí tudo quanto era peça que eu sabia que tinha mulher nua e só gatinha, eu ia ver.
V – Fizeste o que no teatro, depois?
A gente tinha um grupo, que lançou um coletivo. Era legal, tinha uma galera legal. Tem um monte de gente que até hoje eu convivo e que fazia parte desse grupo, o Balaio de Gato. E eu tinha um grupo de rock, o Urubu Rei. Aí o grupo que tocava comigo foi pra Europa e eu fiquei sem banda. Aí eu e o Castor, meio a granel, resolvemos juntar com o grupo de teatro e ficar trabalhando com eles. A gente fez cenário, direção, trilha, o que fosse, tava dando pitaco em tudo. Fazia trilha ao vivo.
T – Era melhor pra pegar mulher no teatro ou no rock’n’roll?
Ah, velho, isso aí é a ciência de cada um. Não tem o lugar que é fácil, que não é fácil. Até porque não é o cara que pega as mulheres, são as mulheres que pegam a gente. O cara achar que é o homem que pega é ilusão. Elas deixam a gente pensar que é pra ficar pensando ‘Ah, peguei essa, peguei aquela’. Até porque quem come não é o homem – quem é engolido é o cara.
V – Tu resenhaste filme pornô, não é?
Sim, trabalhei com isso um tempo. Primeiro vídeo erótico da Set eu praticamente fiz quase todas, mas depois começou a ter vários colaboradores. Os caras entendiam muito, sabiam quantos centímetros tinha o pau dos caras, sabiam o dia do aniversário do ator do filme de sacanagem, ah, vai pra porra.
V – Mas qual a cotação? A Hustler é um pinto mole, um pinto médio e um pau pra cima.
É.
R – Quais são os critérios?
O critério é esse, se eu ficar com o pau muito duro, o filme é bom pra caralho.
T – Mesmo depois de ficar assistindo filme de sacanagem o dia inteiro…
R – Difícil, ficar, pô.
Mas depende. Primeiro fim de semana eu peguei 40 filmes…
R – E ficou de pau duro em todos.
Aí na sexta-feira eu comecei a ver os filmes – detalhe, eu não tinha videocassete, ainda arrumei um videocassete emprestado, aluguei -, e fiquei assistindo os filmes. Quando deu uma meia-noite eu já tinha batido umas cinco punhetas. Falei ‘Caralho, nesse ritmo eu vou morrer’. Aí melhor eu fazer outro esquema: vou bater uma punheta só até a hora que eu parar de trabalhar, pra manter a paudurescência o tempo que eu puder. Aí comecei à meia-noite e às seis e meia da manhã eu gozei. No outro dia eu não conseguia ficar de pé, levantar da cama, precisava ir no banheiro mijar mas não conseguia ficar em pé. Maluco. Aí eu tava tão zoado que eu fui com as calças aberta até o chão, sem camisa na rua, até a farmácia, e falei “Dá uns remédios aí, cara, dá umas vitaminas que senão eu vou ter um treco’. Daí eu tomei várias vitaminas, liguei pruma amiga minha e falei “Ô, você tem que me ajudar, puta merda. Tô com o braço doendo pra caralho”.

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R – Tu lembras de algum filme que tenha te marcado?
Tem vários filmes legais. Na primeira revista fui em várias locadoras e vi o acervo, quis dar uma geral nos filmes de sacanagem, então tinha tudo, “Atrás da porta verde”, O Diabo na carne de Miss Jones” 1 e 2 – o 2 é incrível – o 1 é legal também, mas é muito deprê.
T – (Com voz do Barry White) É horrível, mesmo.
V – Te lembra daquele que tinha um Cyrano que o nariz dele era um pau, ele fodia a mulher com o nariz? Ele deitava e a mulher sentava em cima dele.
A primeira cena do filme era o Cyrano deitado e a menina em cima do nariz dele no Inferno, cara. Aí ela vai gozar e começa a tocar um alarme – “Orgasmo alerta!, Orgasmo alerta!”. Aí vem um monte de diabo com uns caralhos com o rabo enfiado com tridente, correndo, e prendem ela e levam pro Diabo.
T – Não podia gozar, né, cara?
É, trepar pode, gozar não, que o Diabo não deixa. E por que que não podia gozar? Porque a única vez que o Diabo tinha gozado tinha sido com a Vênus de Milo, daí não tinha sobrado nada dela, ficou sem braço, sem perna. Daí ele traumatizou e não conseguia gozar. Aí levam ela pro Diabo – e lógico que quem fala pelo Diabo é o advogado dele. Ela faz uma aposta com o Diabo: “Se eu fizer tu gozar tu vai me dar o que eu quiser”. Aí o Diabo topa, então ela chupa o rabo do Diabo, o Diabo fica com vontade, ela dá pra ele e na hora que ele vai gozar ele tira dela e solta uma labareda de fogo assim. Aí o diabo “Caraaalho!”. Agora ele tem que dar o que ela pedir, e ela pede pra reencarnar. Só que o Diabo começa a gostar dela e fica com ciúmes, reencarna a mulher e ela já chega dando. Chega em casa, toca a campainha e é um árabe, um sheik árabe. Esses caras vêm e comem ela. Aí ele bota ela pra vendedora de Tupperware e ela começa a vender vibrador. Ela vai aprontando e o Diabo vai ficando cada vez mais enciumado, “Puta que pariu, vou botar ela vestida de freira e ficar trocando ela de corpo” – porque ela é uma véia caída, a atriz. Então pra ter umas gostosas no filme ela fica trocando de corpo. Aí botaram ela numa freira, e quando a freira vai dar, Deus tá jogando tênis, toca um alarme lá no céu, “Porra, o Diabo tá aprontando com as nossas filhas”. Aí Deus com aquela roupinha soft rock, jogador de tênis, liga pro Diabo, “Ó, porra, caralho, que negócio é esse aí, cara?” (risos) …. Cara, esse filme é foda.
R – Mas o 1 não é essa loucura toda, né? É mais caretão, pornozão. É mais artístico.
É, deprimente cara. A mina tá cortando os pulsos na banheira e o Diabo vem falar com ela.
V – Tinha que ver filme gay também, Miranda?
Não, velho, inclusive depois, com o tempo, eu não via nem mais filme que tinha homem nu, eu via filme só de mulher. Porque daí eu terceirizei o negócio. Eu chegava com umas caixas lá em casa, chamava umas galeras e falava “Ó, esse aqui, esse é teu, cinco reais cada um”. Aí os caras “Pô, meu, você vai me pagar cinco reais pra ver filme de sacanagem?” Eu falei “Ó, é cinco reais pra ver e escrever direitinho num papel tudo o que acontece”. Aí depois eu ganhava vinte, né?

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Esse negócio de filme de sacanagem… Tem um amigo meu que gosta de sacanagem pra porra. Aí fiquei um tempão sem vê-lo e outro dia encontrei com ele. Reclamava da vida, era produtor de vídeo, trabalhou pra Trama e tudo, reclamava da vida pra caralho. Aí um dia eu encontro o doido, ele tava feliz pra caralho, eu falei “O que tu tá fazendo da vida?” e ele “Caralho, velho, segui o que tu me falou”. “O que que eu te falei?” “Tu falou pra eu fazer filme de sacanagem.” Só filme de negão pegando loira e vendendo pra site americano, botando na internet, e tá ganhando dinheiro pra caralho, tá vivendo só disso, velho. É só dois negão com uma loira.
V – Me diz uma coisa, nessa mesma época tu fazia o “Amar é”.
Era um álbum de figurinha, com frasesinhas bonitinhas, assim, mas aí eu tinha um truque também. Eu pegava essas revistas tipo Capricho, essas coisas, naquela época tinha esse negócio de correspondência, umas gurias que queriam uma pessoa pra se corresponder. Eu começavca a corressonder com nome falso, tudo, e aí elas falavam um monte de coisinha toda fofinha e tal pra eu entender com quem eu tava falando no álbum. Sabia como elaborar o negócio.
V – Era só tu que fazia?
O Álbum de figurinhas? O Alex Antunes até fez comigo. O Alex que me botou nos álbuns de figurinhas. O Freddy Krueger e Jason fui eu e o Alex Antunes que fizemos.
R – Quem recrutava essa turma? É tipo o horóscopo, ninguém tá a fim de fazer e neguinho vai lá e faz?
Sobrou pra mim, porque daí eu fiz esse do Freddy Krueger com o Jason junto com o Alex e os caras da editora gostaram do que a gente fez. E aí todos os álbuns que vinham eles pediam pra eu fazer, e o Alex não quis mais. Aí eu fiquei fazendo isso aí, todos os albuns que vinham…
V – E era bacana?
Era divertido, velho, até criei album, criei os personagens, chamei ilustração, criava esse negócio todo. Teve um álbum das fadinhas e gnomos que eu criei inteiro, todos os personagens.
R – Um dos melhores albuns que eu tinha era o da Gang do Lixo. Era tu que editava?
Não, isso aí foi antes.
V – Mas como era o “Amar é”, por exemplo, tu criava a frase e o cara desenhava?
Não, isso aí já vinha tudo pronto, as coisas gringas.
T – Mas não eram vocês que traduziam?
Mas tem algumas que não êm tradução, né, véio, tem coisa que é de gringo que não dá. Aí eu criava em cima. Era engraçado pra caralho.

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Miranda é um homem discreto em sua camiseta florida e barba cor de chumbo. Mesmo assim, não conseguiu driblar fãs como esta senhora que, desesperada, interpelou-o em pleno saguão do aeroporto. Depois de aparentemente dialogar com a aborrecida, Miranda manteve a conversa em segredo para todo o sempre.

T – Esse assédio que rolou aqui no saguão é normal, cara?
É, todo dia, em todo lugar. Varia um pouco, mas sempre tem uma surpresa. Aí isso é uma parada que rola dependendo do lugar. O que eu menos gosto é o lugar classe média. Porque essa reação é sempre a menos divertida. No lugar mais do povão é muito legal. Povão é astral, fala brincadeira. Quando é lugar mais chique todo mundo finge que não tá se ligando e fica na manha, sabe? Então é engraçado. Mas tem que acostumar, né, velho? Tem lugar que dá tumulto, tem que saber onde vai dar tumulto que é pra não ir. É muito louco ter que lidar com isso.
R – Onde já deu tumulto?
Ah, em vários lugares, cara. De ter que fugir, de ter que ser levado embora, de segurança ter que pegar e tirar. Já teve em supermercado, shopping. Todo mundo fica louco, velho, começa a gritar, São Paulo, Rio. Já fiquei preso na banca uma vez em Porto Alegre, e na Paulista uma vez eu tava passando num happy hour e o pessoal começou “Miranda! Miranda!”, e quando eu vejo o outro bar lá na frente ouviu e começou também, e eu pensei “Cara, ainda vou ter que passar pelo outro bar”. E é uma coisa que eu sou muito na boa com isso. Nâo dou bola pra ser famoso, quero que se foda, não tô nem aí pra isso aí. Celebritismo é coisa de otário. Agora, por outro lado eu respeito e entendo que as pessoas fiquem felizes quando me vêem e é uma coisa que me faz feliz. Porque quando tu vê o sorriso da galera, vê que fiz eles felizes em casa, aquele dia que o cara tá em casa, eu falei umas merdas lá e o cara curtiu pra caralho. Aí ele quer vir falar comigo. É lógico que eu tenho que primeiro respeitar isso e segundo ficar feliz, achar legal. Então não posso ser fresco com essas coisas. Eu troco idéia com todo mundo.
V – Os caras não vêm tirar satisfação?
R – Tipo essa doida?
Mas aí eu sacaneio, eu tiro onda com a pessoa, brinco. Se a pessoa continuar querendo estresse, aí eu dou um jeito de sair fora, ou se tiver que bater no sujeito, eu bato.
T – Já aconteceu de tu encontrar alguém que tu tinha eliminado?
Já, vários. Aí eu sacaneio. Ontem mesmo eu encontrei. Aí ele falou “Pô, fui lá cantar, tu acabou com o meu bagulho lá”, e eu falei “É, velho, porque tu é ruim, mesmo”. Já falo de novo, já aproveito pra zoar o cara mais uma vez. Peguei uma muito legal: eu tava em Florianópolis sentado num barzinho na lagoa aí pára um Escort todo escangalhado, desce um cara todo mal-encarado e vem perto da mesa, “Tu é aquele cara lá do programa, né?”, falei “Eu sou”, “E falou pra minha mulher pra ela nunca mais cantar”. Aí eu falei “É, porque ela devia ser muito ruim mesmo”, e ele falou “É, velho, e eu quero te agradecer porque ela nunca mais encheu o meu saco lá em casa com esse negócio dessas cantorias dela”. Aí eu falei “Ah, então agora tu paga uma cerveja”.
V – Salvou um casamento.
Certíssimo. Na verdade eu tô prestando um serviço social. Um serviço de proteção à vida alheia.

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R – Agora Miranda, tu teve banda, não?
Já, horrível.
R – Se a tua banda fosse no Ídolos, o que ia acontecer com ela?
Mas o Ídolos não é pra banda, é pra cantor.
V – Mas tu cantava.
Se eu fosse cantar no Ídolos ia falar “Ô, velho, que tu tá fazendo aqui? Vai pro underground, vai cantar nos infernos, mas não vem encher o meu saco aqui”.
R – Pra quem olha é do caralho tu estar ali avaliando os caras e tal, uma vida legal. Mas em algum momento tu ter que ver aquelas criaturas malucas te cansa?
Ah, velho, eu nunca tinha escutado na minha vida Jorge Vercilo, Ana Carolina. Ter que ouvir essas músicas realmente cansa, velho. Eu ouvi cada música ruim, cara. Eu sabia que eles existiam, o Jorge Vercilo já tinha me mandado demo uma vez, muito tempo atrás, no começo da Trama. E eu tinha achado ruim, falei “Cara, como é que pode um cara cantar igual um Djavan? Isso nunca vai dar certo”. Pra ver que eu não entendo nada deses negócios, o cara deu certo. A Ana Carolina eu tinha conhecido junto com o João Marcelo e tal. Mas eu nunca tinha escutado o som dela. Cara, é muito ruim, velho! Eu ouvi as músicas e cutuquei as Cyz e falei “Ô, que música é essa que o cara tá cantando, que eu nem sei de quem é?”. Eu não conheço nada dessas músicas.
V – E não é só isso, né, cara, tem aquelas firulas de voz.
Aquilo lá é bicho caozeiro que acha que canta e acha que vai cantar.
V – E tem aquela Marly, do Raul Gil, que era só firula.
É muito louca, né? E pensar que ela é tratada com respeito e como uma grande cantora num outro programa de televisão. É assustador, cara. Que critério é esse, cara?
V – Mas é considerada uma diva.
Pelo que eu entendi, pelo Orkut, ela era uma das grandes cantoras do Raul Gil. Mas também eu nunca vi o programa do Raul Gil, não vou perder meu tempo vendo esses troços.
R – Quem emplacou agora foi aquele moleque do sax. Ninguém sabe o nome dele.
Eu tenho uma teoria de que todo saxofonista devia tocar vestido de palhaço, e todos os palhaços deveriam tocar saxofone. E o saxoprano é um instrumento que devia ser tocado com o cu, que é o que merece quem faz o saxoprano, viu, velho?
T – (Chegando de algum lugar) Quem? Aquele garoto?
V – É, o menino do sax.
R – Como é o nome dele?
V – É tipo uma “loira fantasma”.
T – Porra, tinham que arranjar uma namorada pra ele, o moleque tá com uns 14 anos. Tomara que ele se dê bem.
V – E pare de tocar.
Eu nunca vi ele tocando. Mas volta e meia eu pego um táxi e o cara “Porra, tem que ver um cara que tá no Raul Gil, que toca sax”. Isso é horrível. Aí ele diz “Isso é muito lindo, essa música é muito boa”. Então casa com ele, véio.
V – O que é bizarro é isso. O menino do sax vai no Raul Gil e ele não leva a banda. Aí tu imagina que dublagem já é estranho, e ele fica dublando o sax. Pópóró.
Cara, que coisa horrível. Isso é o lixão do lixão. E o Ídolos o curioso é que a gente tá lá zoando do lixo. Então é um programa que inverte o jogo. Neguinho chegar com essas porcarias lá, a gente vai falar que é horrível.
T – Mas Miranda, como produtor tu tá acostumado a ver muita coisa ruim, né?
Mais ou menos, mas aí aí eu nem eu ouço, cara. Chega uma demo horrível eu olho assim e falo “ah, sai pra lá com essa coisa horrível”.
T – Mas não escuta nem a primeira coisa pra saber?
V – Pela capa?

Eu escuto, mas se eu vejo que o nome da banda é um nome idiota, tem a foto com uns idiotas atrás, eu nem ouço nenhum segundo da música.
R – Tu já dispensou o CD pela capa?
Claro.
T – Já aconteceu de dispensar e ver o cara estourar?
Mas aí com certeza é horrível. Eu não erro nisso, cara. Não erro. Ninguém que tenha o nome horrível numa banda e que tenha cara de idiota vai fazer algum sucesso.
R – Qual o pior nome de banda que tu já ouviu?
Mamonas Assassinas. Eu acho o nome horrível, a banda horrível.
V – Pra mim o pior nome do rock nacional é Biquini Cavadão.
É, boa, também é banda horrível.
T– Mas Vlad, o Biquini quando os caras tocaram aqui há uns dois anos tu elogiaste pra caramba…
V – O show foi bom.

Ê, cara!!! Ih, olha….
V – O show foi bom. Só que eles voltaram e fizeram cinco shows iguais.
Mas eles tocam aqui porque em São Paulo tu nem ouve falar, porque lá eles não vão, cara.
T – E o Vlad falando que foi um puta showzão.
V – Não fui só eu, tu falou, o Damaso falou.
R – A gente foi gravar o tecnobrega um dia desse, quando chegamos lá tá o show do Biquini Cavadão tocando “Será”. Muito picareta. Aí ele pega o Bob Marley e toca “No Woman No Cry”.

O Biquini Cavadão isso?
R – É.
Po, aí comprova minha teoria. Chega uma demo pra mim. Biquini Cavadão, eu olho a foto é aquele cara. Eu não vou ouvir, cara. Já sei que é ruim. Tá escrito ali, cara.
T – Rola algum sentimento de autopreservação?
V – Tipo um instinto?

Não, eu tenho mais o que fazer, cara. Não tem preço no mundo que pague pra eu ouvir tanta tranqueira, cara. Não tem como.
V – Na Bizz rolava de dar nota sem ouvir, né?
Mas era de propósito. Era uma atitude política, mesmo. Eu dava nota sem ouvir que era pra desmoralizar os críticos. Pro público saber disso e falar “Pô, esses críticos não fazem sentido nenhum”. Era isso que eu queria que eles entendessem. Era totalmente aleatório. Que diferença faz o sujeito gostar ou não do negócio?
R – Não batia uma consciência pesada de detonar um disco assim sem nem ouvir?
Ah, zero.
R – Chegaste a dar zero sem ouvir?
Claro. Na Tropicália 2 eu dei 2 sem ouvir. Já tava sugerido ali o nome. Se o 1 já era ruim, o 2, pronto. Uma vez eu tava na redação, o Forastieri falou “Ó, faz a crítica desse disco do Motorhead aqui, o ‘March or Die’”. Aí eu “Pra quando?”, “Pra daqui a meia hora”. Aí assim, Motorhead, como sempre, muito bom, dei a nota boa, cheguei em casa botei pra ouvir e falei “Caralho, que disco ruim pra caralho. Agor já elogiei, já tá lá, foda-se”. Pra tu ver que não faz diferença.
V – Tu acha então que não dá pra levar a sério resenha de disco?
Tu tem que ler e comparar, mas tu tem que ouvir o disco. Se é um artista que te interessa, tu tem que dar uma conferida. Tu tem que ler entra as palavras. Por exemplo, eu sou viciado em revista de musica, eu leio todas – as gringas, porque as brasileiras eu leio as que têm pra ler, a Roling Stone hoje, só. E tem a DJmag, é legal. Eu leio na Mojo eu já sei como são os caras lá. Na Uncut, o cara fala outra coisa. Na Xlr8tr, fala outra.
V – Eu acho a Xlr8tr a melhor, cara.
È, mas assim, o critério cada um lê uma história. Tem coisa que o cara da Xlr8tr não vai entender, vai achar uma merda, o da Uncut vai achar do caralho. Por exemplo, coisas de americano o cara da Uncut não tem noção de nada, tudo é bom, os caras acham incrível. New folk, country rock, tudo é bom, não interessa o que é. Daí na Mojo os caras têm outro critério. Então assim, tem que ter essa noção e comparar as coisas, conversar com os amigos.

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Tylon: “Como faço pra participar do Ídolos?”. Miranda: “Nem fudendo, véio.”

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(Ter banda) Era divertido pra zoar, pega mulher, mas, ensaiar, velho, não é comigo. E a gente começou de zoeira, véio, mas daí as pessoas começam a gostar e esquecem que aquilo é de zoeira e fica achando que é sério e aí paga mico. Tô fora, cara. Acontece que a maioria que leva a sério é a pior coisa que pode acontrecer, véio. O artista que tá se levando muito a sério, tá roubado, coitado. Vai ser um eterno iludido ali, cara.
V – E o festival da Se Rasgum, o que tu achaste?
Achei legal o festival. Tinham umas bandas meia-boca, também. Achei curioso o Filhos de Empregada, acho que é uma banda que chutou o balde.
T – Acho que eles souberam aproveitar o festival, cara.
É. E eu tinha ficado com nojo, falei “Nem vou ver o show dos caras”, que eu vi as fotos dos caras tudo de cueca, sunguinha, falei “Ah, nem vou ver essa merda aí”. Mas aí eu ouvi de longe o som e falei “Caralho!”, e os moleques peitaram mesmo a onda de fazer o show.
V – O que a gente vinha conversando era que parece que as coisas que não são ortodoxas nesse festival em especial são as que tão dando mais resultado.
R – É. O show do Móveis foi do caralho.

Mas o festival em si foi muito legal. É bem bolado, os palcos, o lugar pra dançar, eu achei muito massa, cara. Não gostei muito da cerveja, mas tudo bem.

E engatamos novamente na história do Ressaca o papo sobre cervejas ruins. A Schin, que nada tem a ver com o festival, entra no papo.

R – A Schin parece esquentar mais rápido. Fica muito ruim.
V – Pior que tem uma puta duma fábrica na estrada.
R – A gente tá fudido, porque antes era a Cerpa, e a Cerpona grande é ruim.
Ah, não é ruim, cara. Não é tão ruim.
R – É sim, cara. Boa é a Cerpinha, a Cerpa é ruim. A gente aturava mais do que gostava.
V – Mas se tu for ver nenhum festival tem cerveja boa. O Fest Rock era Schin, o Rock In Rio era Malte 90.
Malte 90 é um desespero.
T – Mas a propaganda da Malte 90 era muito legal.
Malte 90 é a vanguarda dessas cervejas ruins, aí. É a primeira delas. Aí depois veio a Bavaria, a Primus.
R – A Bavaria Premium é boa.
A Bavaria Premium dá pra tomar. Kaiser Gold é muito boa.
V – Mas a Nova Schin é engraçado, ninguém toma essa cerveja. Ninguém gosta.
Tem também a Itaipava, tem muito lá no Sul agora. É ruim pra caralho.

Conversas sobre o picaretagem que é o Jack Daniels – que nem do malte é – e a José Cuervo. Nesse momento, o jornalista Pedro Alexandre Sanchez está sentado numa mesa ao lado embrulhando um Guaraná Cerpa num jornal todo fodido.

Eu sempre levo.
R – O garçom esqueceu da gente.
Então eu vou embora, cara.
T – Ei Miranda, quando selecionaram vocês pra serem jurados do Ídolos, eles falaram alguma coisa como “Tu tens que ter esse perfil” ou já te olharam achando que tu tens o jeito?
Não, acho que eles tavam procurando um quarteto que misturasse bem. Pela maneira como foi feita a seleção, eram umas quarenta e poucas pessoas e eles ficavam montando mesas diferentes. E iam vendo qual a mistura que ia dando mais certo.
V – Eu queria uma Coca por favor.
R – Vocês realmente se aborrecem um com o outro ali, cara?
O Tomas e o Arnaldo, só. Eles são amigos tipo o Nicolau e o Vlad. Eu até fico brincando dizendo que o Ídolos são dois casais. O pessoal fica falando que eu e a Cyz namoramos, então eu falo que eles são o outro casal. Os dois vivem brigando. E eles são parceiros, já fizeram várias músicas juntos. Tem uma música dos dois juntos, aquela “O nosso amor é lindo”. Quer ver outra dos dois? “Não faz mal, eu tô carente mas eu tô legal…”

RISOS geral.

T – Quem cantava isso, cara?
A Mara. Pra tu ver como são as coisas.
V – Foi por isso que a Lenny Belard mandou aquela pra ele, “Ah, tu produz pagode e vem falar do tecnobrega”.
É, foi um romance ali.
R – Mas ela mandou muito bem. Chegar lá, com o cu na mão…
V – Rolou um raciocínio muito rápido na seleção dela. Ela fazia um correio sentimental no programa do Dinho, que falava de bruxaria, simpatia pra pegar macho. Eu conheci ela na gravação do programa.
T – Ainda funciona essa bruxaria?
Tu quer pegar macho, é?
R e T – Alôôu, século 21, Miranda!!
V – O Dinho tava me falando que ela queria fazer cantando MPB, aí o Dinho disse “Não, vai lá cantar tecnobrega e calipso que vai ser melhor pra ti”.
R – Ia ser só mais uma.
Ah, não ia dar certo, cara.
R – Engraçado que vai muito cara cantando pagando de cantar música negra.
T – De cantar tipo aqueles norte-americanos?
V – São uns maneirismos. Sabe qual o lance? É uma galera que não sabe cantar e usa uns clichês, uns floreios enjoados.

É, horrível. A Lenny pelo menos era simples, cara. Fez os lances dela ali.
V – Essa galera é contaminada disso.
Só que tu vai ver o negro norte-americano e não tem nada a ver com isso que eles fazem. É que nem Hello Kitty de esquina. Tu vai ver ela de perto e não tem nada a ver.
R – A Turma da Mônica é a mesma coisa. Nunca desenha igual
V – De parquinho de colégio, que nunca desenha igual. Eu só achei uma igual.
R – Eu nunca achei.

Turma da Mônica de muro de escolinha é foda! Hahaha.
R – Lá perto de casa tem uma pizzaria da Mônica!
Eu acho que já vi isso uma vez, essa escolinha aqui. A gente ficou rindo pra caralho.
R – Até os Simpsons o cara consegue desenhar mais fácil, eu lembro que eu desenhava. Mas a Turma da Mônica não. Ela tem essa bochecha, esse osso, não sei que porra é essa.
V – O mais louco que eu vi foi na Copa do Mundo, que um cara desenhou o Aqua Teen no muro, tu viu? Era o Aquateen com a roupa do Brasil. Bicho, eu não sei qual a associação que o cara fez daquilo.
R – O Aquateen, quem entendeu aquilo?

O Aquateen é muito bizarro.
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A caixa de som do aeroporto clama por Miranda. É seu vôo.

Velho, vou deixar uma grana pra vocês e vou nessa.
R – Deixa uma mensagem carinhosa aí pro Ressaca.
Muito amor a todas as gatas e muita alegria pros homens, que vão ter que passar tudo pra longe de mim.
T – “E nessa hora Miranda deixa dois reais e vai embora.”
R – “Nessa hora, Miranda puxa a carteira e vai embora.”

Vou tirar a foto aqui e vocês não vão ter como dizer.

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Humilhados e tratados como mendigos, os integrantes do Ressaca Moral não negaram a esmola. Messias Jardan fez o clique mas ficou de fora do rateio.

8 Responses to “RESSACA * ENTREVISTA: Miranda”

  1. junior says:

    estou a procura de um prazer solitário.
    onde posso encontrar esse filme?

  2. Nola says:

    Se fossem homens, vocês seriam os caras.

  3. Rafael, Vlad e companhia

    Muita boa a entrevista com o Miranda! Abraços pra vocês! beijos!

  4. Garoto, garoto.
    Sem essa de crítico iniciante. Queres é a dica para um prazer solitário, não? Vá lá, que seja.
    O filme é “Diabo na carne de Miss Jones 2″. Vai nesse aí, o um não é lá essas coisas.
    Abraço e se divirta.

  5. Emanuel says:

    Tambem sou crítico iniciante e não-publicado de filmes pornôs e quero saber qual o filme citado na entrevista.

  6. Sarah says:

    Caraio, eu tava lendo isso e tomando cerveja Sol. Quanta fodelança. Mas o Miranda surpreendeu. Adorei a “gastura onanista”.

  7. Rafael says:

    Essa entrevista é importante ‘a nível de’ Jorge Vercilo e Ana Carolina.

    Mas sim, era a Sol. Mas não estávamos mais falando dela.

    Venha sempre e traga farinha.

  8. Pedrox says:

    É uma entrevista tão importante que teve que ser publicada três vezes. Deve ser para fixar.

    A propósito, a cerveja ruim do festival não era a Nova Schin, era a Sol.

    Um beijo no coração de vocês.

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