Nas paredes descascadas de sua sala de acesso restrito, um pôster do Guarani, a imagem de Nossa Senhora e um antigo recorte de revista, com a foto de um másculo Nuno Leal Maia com uma prancha de surf em Saquarema. O retrato, que por tantos anos depôs contra a sexualidade do delegado Maria Bethânia, o Betão, nas conversas de corredor da 26ª DP, hoje lhe serve de aliado quando tenta se defender das acusações de preconceito que ganharam a mídia após o caso dos sargentos gays. Ao lado de Jussara, o fuzil AR-15 que não discrimina ninguém e atira para todos os lados, Betão é porta-voz do movimento que pretende calar os que questionam o trabalho da Lei.
Suspeitas de preconceito sempre pairaram sobre a 26ª DP. Nos últimos anos, quatro cabos e um faxineiro foram exonerados após saírem do armário. O delegado garante que os demitiu por questões profissionais, embora dois dos cabos tenham acusado Betão de assédio sexual. “Depois que assumi minha homossexualidade, [o delegado] passou a dormir todas as noites no meu alojamento”, garante um deles, que não quer ter o nome revelado. “Ele se sentava ao pé da minha cama e ficava alisando o cabo da Jussara”, afirma. Maria Bethânia, o Betão, evita falar sobre o episódio, mas reforça que “nunca houve discriminação contra afeminados” dentro de sua delegacia.
“Não vou permitir que digam que tenho algo contra essa gente”, protesta o delegado. “O único preconceito que aceitamos aqui é contra os argentinos”, brinca, comentando a prisão de seis turistas do país vizinho na última semana. O grupo caminhava pelo centro da cidade e cruzou com Betão, que voltava de um churrasco no morro, onde assistiu ao jogo Brasil x Venezuela. O delegado explica que deixou a garrafa de uísque em um lugar seguro e apontou Jussara para os estrangeiros. Todos foram algemados e levados para a delegacia, onde passaram 18 horas. “Nós sabíamos que haveria aquela confusão depois da vitória da Venezuela, então trancamos os dieguitos para protegê-los”, justifica.
Apesar das numerosas acusações de truculência e discriminação feitas por diversas entidades que defendem os direitos dos homossexuais, o delegado Maria Bethânia, o Betão, garante que não irá diminuir seu empenho no combate ao crime. “Às vezes somos mesmo enérgicos”, admite. “Mas nada disso seria necessário se esses rapazes não tivessem sido criados pelas avós”, brinca.

Para reforçar sua postura em relação ao assunto homofobia, o delegado Maria Bethânia, o Betão, tem agora em sua sala uma moldura com a charge acima, com a qual garante se identificar. O presente bélico é de Messias Jardan, fã do blog Rasura Livre.