Archive for the ‘Delegado Maria Bethânia’ Category

Um dia na vida do Delegado Maria Bethânia

Tuesday, April 19th, 2005

Após insistentes tentativas malsucedidas de reservar um espaço na agenda do Delegado Maria Bethânia, o Betão, a equipe do RessacaMoral conseguiu, finalmente, acompanhá-lo durante um dia inteiro. Betão, idade não revelada, ama sua profissão acima de tudo e se dedica a ela com afinco. Delegado concursado há mais de 20 anos, fez da polícia a sua casa, e de sua casa um cortiço. Combate o crime como quem combate a caspa: “Bandido a gente tem que caçar, tirar e esfarelar”, diz. Inseparável de Jussara, seu fuzil AR-15 adquirido no Paraguai durante uma operação contra o contrabando na fronteira, Betão abriu sua privacidade com exclusividade para a equipe do RessacaMoral.

06:00 – O despertador do aparelho celular toca. Maria Bethânia, o Betão, aperta no botão Soneca, vira para o outro lado da cama, e volta a dormir.
06:15 – O despertador toca novamente e, incomodado, Betão desliga o celular.
07:19 – Zuleide, sua faxineira, toca a campainha algumas vezes, mas Betão não acorda para atendê-la.
07:38 - Zuleide bate um pedaço de pau nas rodas da bicicleta de Betão, simulando o barulho de um carcereiro batendo nas grades de uma cela de prisão. Betão se levanta assustado, abraça Jussara e, após alguns minutos de reflexão, abre a porta para Zuleide.
08:13 - Betão comenta comigo que “tempo é dinheiro, para os policiais mais ainda” e em poucos minutos entra no banho.
09:22 - Betão sai do banheiro já vestido com sua farda oficial. Deixa seu frasco de creme rinse em cima da cama para ligar o celular. Ouve as mensagens deixadas em sua secretária, e me conta que “o governador desistiu do café da manhã”. Retorna a ligação, desculpando-se por não ter comparecido ao café agendado para as 8 horas por causa de um problema em casa.
09:35 - Betão fecha a casa e caminha até a viatura. Recebo um colete a prova de balas e sou convidado a assumir o papel de co-piloto. Pergunto se não haveria nenhum problema em deixar a viatura da polícia estacionada em sua própria garagem, e Betão responde calmamente que isso não é da minha conta.
10:02 – Recebemos pelo sistema de comunicação da polícia um chamado: a pouca distância de onde estávamos, um carro é assaltado e o ladrão mantém um refém sob ameaça de morte. Betão liga a sirene de sua viatura, acelera fundo e comenta que bandido bom é bandido torturado. “Vamos fazer justiça nessa porra!”, se anima.
10:17 - Observo os instrumentos da viatura quando, repentinamente, o carro dá uma freada brusca. Assustado, me abaixo. Após alguns segundos de tensão, percebo que o carro parou em frente a um boteco. Betão desce, encosta no balcão, e pede uma dose de cachaça.
10:29 – Betão toma sua segunda dose de cachaça.
10:41 – Enquanto degusta sua terceira dose de cachaça, Betão nota uma estranha movimentação do lado de fora do bar: dois homens carregam um pé de cabra e uma chave mestra. “Esses caras tão de onda!”, comenta. Sai correndo do boteco. Ao chegar à calçada, nota que não há nenhuma confusão, como havia imaginado. “Bora, bora, que a gente tá atrasado, moleque”, me ordena gentilmente.
10:42 – Betão percebe que sua viatura sumiu.
10:45 – Ao notar uma moça de aparentes 18 anos abrindo seu Kadett marrom, Betão lhe mostra seu crachá e pede que ceda o carro em nome da lei. Como a menina não acredita ao ler “Maria Bethânia” em sua identificação, ele lhe mostra Jussara.
11:22 – A bordo do Kadett de Mariana, que nos acompanha no banco de trás, chegamos ao local onde um bandido fizera um refém horas antes. Betão desce do carro empunhando Jussara. Aparentemente, o assalto já acabara. Betão entra em uma loja de calçados parcialmente fechada para perguntar o que houve por ali. É recebido por uma senhora que chora copiosamente e explica que seu marido acabara de ser morto. “Ainda chamamos a polícia, mas ninguém veio. Nossa polícia é muito incompetente”, reclama. O delegado Betão algema a senhora por desacato à autoridade.
11:26 – Rumamos à 26ª DP. Sou convidado pelo delegado a empunhar uma arma em direção à cabeça da senhora que o havia desrespeitado, para garantir que ela não faça nenhuma gracinha. Mariana parece pouco à vontade participando do combate ao crime.
11:55 - Já na 26ª DP, Betão entrega a senhora mal educada à carceragem, e saímos para o almoço no carro de Mariana.
12:38 – Vamos ao restaurante “A Kilo Roxo”, onde, segundo Betão, se faz a melhor comida do comércio da cidade por apenas um real. Betão faz um prato de um quilo e meio, misturando macarrão, purê de batata, peixe, almôndegas, feijão e alguns sushis. Faço um prato com arroz, feijão e bife. Mariana prefere não comer.
13:17 – Após lamber o prato, Betão se levanta e, educadamente, diz que vai ao banheiro “controlar uma rebelião”. Divido uma Coca-cola com Mariana enquanto o aguardamos.
14:22 – Betão volta à mesa. Saímos do restaurante e, ao entrarmos no carro, ele comenta que a vida de delegado não é nada fácil e mal dá tempo para se envolver com garotas. Betão me pede para dirigir o carro, e opta por sentar no banco de trás, ao lado de Mariana.
14:31 – Quando o carro pára em um sinal, Mariana abre a porta e, aos gritos de “socorro” e “me larga”, foge em disparada da viatura improvisada.
14:49 – O celular do delegado toca: outro chamado urgente a ser atendido. Um idoso com mais de sessenta anos acaba de ser assaltado e espancado em uma agência bancária. Pergunto se devo acelerar em direção à agência, mas o delegado, pensativo, leva alguns minutos para responder. “Meu filho”, raciocina, “se o velho tá morrendo, o que a polícia tem pra fazer lá? Nada! Ele tem que parar de encher meu saco e chamar uma ambulância!”. O delegado me manda continuar dirigindo sem rumo.
15:03 – Quando passo em frente a uma praça, o delegado me manda parar o Kadett de Mariana. Vejo uma confusão a menos de 50 metros: dois rapazes esmurram uma criança para roubar sua bicicleta. Separo a máquina fotográfica para não perder a oportunidade de registrar a prisão dos dois delinquentes.
15:04 – Betão desce do carro e vai direto a uma barraca hippie, onde compra um anel de caveira e uma soqueira por apenas 15 reais. “Rapaz, isso aqui vai ser uma beleza pra quando eu pegar um argentino”, comenta. E volta para o carro. Assume o comando do Kadett me dizendo que eu não tenho habilidade para dirigir como policial.
15:38 - Enquanto passeamos pela cidade, Betão comenta que está entediado. A vida de delegado, além de desprovida de emoções, é cansativa para um homem com a idade dele. Pergunto sua idade, e o delegado me responde com uma coronhada.
15:59 – Voltamos à 26ª DP. O delegado me leva para conhecer seu gabinete: na parede, há um pôster de campeão brasileiro do Guarani de Campinas, uma foto do Ayrton Senna e uma capa de um disco do Michael Jackson. Em sua mesa, um telefone de disco, uma velha Olivetti e várias fotos de armas do mundo inteiro. Na estante, apenas a Bíblia Sagrada. Betão me deixa ler algumas linhas do papel estacionado em sua máquina de escrever. E me explica que este é o início de sua autobiografia, cujo título será “Pena de morte pra bandido é pouco”. Já está na segunda página.
16:12 – O soldado Nogueira pede audiência com o delegado Betão. Conta que uma senhora presa em uma das celas da delegacia alega inocência e diz que foi detida injustamente. Seu marido teria sido morto durante um assalto pela manhã. O delegado, revoltado, manda investigar e prender o responsável por tamanha truculência.
16:17 – O telefone da mesa do delegado toca. Um novo chamado o excita: um argentino foi visto xingando um rapaz negro de negro no centro da cidade. “Ah, agora o couro vai comer”, comemora Betão. O delegado termina de lustrar Jussara e saímos rapidamente para combater o crime.
16:19 – Como o Kadett de Mariana havia sido guinchado por estacionamento em local proibido — ele estava parado em frente à garagem da delegacia — somos obrigados a utilizar uma das viaturas oficiais. Betão liga a sirene e dispara em alta velocidade.
16:29 – Chegamos ao local de onde partira a denúncia. Empunhando Jussara no braço esquerdo e sua nova soqueira na mão direita, Betão anda alucinado pelas ruas perguntando “cadê o argentino filho da puta?”.
16:35 – Betão pergunta a um rapaz que tocava uma música dos Beatles em uma flauta se ele sabia alguma coisa a respeito de um argentino. Ao responder “No hay argentino aquí”, o garoto leva um murro de Betão, perdendo todos os quatro dentes da frente. O delegado o derruba no chão e o domina colocando o joelho por cima do peito do rapaz. “Tu vai aprender a ser gente, seu argentino filho da puta”, comenta o delegado enquanto esbofeteia o flautista.
17:12 – Betão promete ao rapaz não mais lhe bater, desde que ele concorde que é argentino e que prometa nunca mais ter atitudes racistas. O flautista apenas balbucia.
17:38 – Betão larga o corpo inerte do flautista peruano no chão, e entramos na viatura. “Esse desgraçado mereceu o pito que eu dei”, argumenta.
17:42 – Com a certeza de mais um dia de dever cumprido, Betão diz que, apesar das dificuldades, gosta de seu ofício. E que não trocaria sua profissão por nada, a não ser uma viagem para o Nordeste — desde que pudesse levar Jussara com ele. Estressado, alega que precisa descansar, enquanto passeamos por uma das avenidas mais movimentadas da cidade. “Ser policial”, ensina, “não é mole, não. Tem que ter muita cabeça fria”, conclui enquanto acende um baseado para relaxar.

Delegado homenageia o Papa

Friday, April 15th, 2005

Codó (MA) – O astuto delegado Maria Bethânia, o Betão, aproveitou a coletiva em que esclarecia os detalhes sobre a libertação do prisioneiro de guerra Vladimir Cunha – “foi bom pra exercitar a panturrilha”, declarou – para divulgar sua homenagem ao Papa João Paulo II. Betão, além de delegado, surfista e vendedor de mapas, é também líder da banda Fratura Exposta, que gravou a música “Oh, Karol” para enaltecer o Santo Padre. O delegado explica que ainda não teve a oportunidade de apresentar nenhum show com a canção, mas que tem cantarolado a melodia todos os dias antes de começar a trabalhar. “Nada melhor que ser abençoado antes de começar a matança”, explica.

Trecho da canção:

Oh, Karol (Delegado Betão)

“Oh Karol
Sem o teu louvor
Tudo é tristeza
Meu dia é um horror”

Delegado Maria Bethânia prende argentino metido a besta

Thursday, April 14th, 2005

Morumbi (SP) - A onda racista não tem mesmo limites. Na quarta-feira, logo após o jogo São Paulo x Kill Mes, pela Copa Libertadores da América, o prestativo delegado Maria Bethânia, o Betão, saiu de casa, deixou seu televisor da National ligado e, dirigindo sua viatura acima da velocidade permitida pela lei, invadiu o estacionamento do estádio Morumbi, atropelando e matando instantaneamente quatro senhoras que faziam um protesto pela paz no trânsito. A tragédia, felizmente, não foi em vão. Betão realizaria, alguns minutos depois, mais um de seus importantes feitos: espancar e deter um argentino acusado de racismo.

Segundo o delegado Betão, o argentino Miguél Rojas Gonzales, jogador do time do Kill Mes, teria praticado atos racistas contra o jogador Grafite, do São Paulo. Grafite, cujo nome significa “aquele que chamou o elevador e não teve paciência pra esperar” em um dialeto oriental, relata que, após um lance normal de jogo, esmurrou o argentino, deu-lhe dois cascudos, desferiu-lhe quatro pontapés, aplicou-lhe um tacle e o chamou de “argentino viado“. Miguél teria lhe respondido “tu eres un panaca“, o que foi considerada uma grave ofensa racista. “Ele só me chamou de panaca porque eu sou negro”, acusa o jogador brasileiro. O delegado Betão, que assistia a tudo pela televisão, no conforto de seu modesto lar, não contou conversa: tirou do armário seu fuzil AR-15 e em menos de 10 minutos já estava com a gola do argentino entre as mãos.

“Ele vai ver o que é bom pra tosse”, garantiu o delegado, em uma coletiva na 26ª DP, exibindo um vidro de veneno para ratos. “Vamos fazer justiça. Ninguém vai ser torturado mais que o necessário”, prometeu. O argentino deverá ser liberado logo após o procedimento de acariciação com outros detentos.

Quadrilha procurada por 2 mil anos é detida

Saturday, April 2nd, 2005

Niterói – Foram detidos na tarde deste sábado, enquanto cruzavam a ponte Rio-Niterói, os bandidos Zico do Santos, Edson Arantes e Roberto Carlos, o Perna-Manca, quadrilha conhecida pela polícia com “Os Três Reis”. Perna-Manca e seus comparsas eram procurados havia mais de 2 mil anos pela polícia, mas jamais puderam ser detidos por contarem com proteção do Vaticano, que sempre lhes fornecia habeas-corpus. “Com a morte do Papa”, explica o Delegado Maria Bethânia, o Betão, “eles perderam sua força”. A quadrilha era acusada de diversos crimes, entre eles o de haver oferecido mirra para uma criança recém-nascida. No momento da apreensão, a polícia encontrou 213 quilos de barras de ouro, 31 pacotes de incenso e muita maconha. “A mirra era para consumo próprio”, defende-se Perna-Manca.