Archive for the ‘Cruzmaltino Bandeco’ Category

Os shows que eu não assisti: Iron Maiden

Monday, March 3rd, 2008

Por Cruzmaltino Bandeco*

Se existe um estilo musical que nunca fez sucesso mas sempre encheu o saco é o Heavy Metal, uma mistura esdrúxula de mitologia de araque, caveiras e rapazes de cabelo comprido com calças pra dentro da bunda. Em geral, grupos de Heavy Metal são compostos por algo entre doze e dezoito integrantes. O número exagerado de músicos tem uma explicação óbvia: quanto mais gente zanzando em cima do palco, mais fácil esconder do público a falta de intimidade com os instrumentos musicais.

Um dos ícones do gênero é o conjunto estrangeiro Iron Maiden, cujo nome em português quer dizer “moça de ferro” — onde eu nasci, homem com essas manias apanha de cinta do pai. Na última semana, eles estiveram no Brasil para se apresentar em um estádio de futebol abandonado. Não pude ir ao show por causa de um terçol que me obriga a fazer compressas o dia inteiro. Mas não tenho do que reclamar: pelo que me disse meu amigo Décio, que é metalúrgico e entende tudo de metal enferrujado, a apresentação foi um fiasco.

Para o Décio, o que torna estes senhores de calça de couro uma referência para os metaleiros é uma incógnita. Mas um olhar superficial sobre seu show e como age seu público dá algumas pistas: no palco, uma caveira de isopor anda de um lado pro outro tal qual o Robocop, e isso leva às lágrimas gordos cabeludos na platéia. Ao mesmo tempo, panos com esfinges e pirâmides surgem e somem sem motivo aparente atrás do vocalista, fazendo-o uivar e gargalhar como uma bruxa do desenho do Pica-pau.

Se o show do Iron Maiden já é um espetáculo de circo de mau gosto, musicalmente a moça de ferro lembra um daqueles LPs coloridos que se usa para distrair crianças no recreio: as músicas são basicamente sequencias de notas iguais, e os vocais se resumem à repetição em diferentes tonalidades de um tal “ô, ô, ô, ô” — o que torna mais fácil rimar e permite que o público cante junto com a banda sem o trabalho de decorar. Em algumas composições mais trabalhadas, as letras falam sobre as típicas angústias do metaleiro de meia-idade, como o medo de escuro em Fear of the Dark ou a obrigação de voltar cedo pra casa em Two Minutes to Midnight (“2 minutos para a meia-noite”).

É difícil entender o que faz alguém sair de casa para ver algo desse nível. Pra piorar, ao final da apresentação, Bruce Dickinson, o vocalista do conjunto, prometeu voltar ao Brasil no ano que vem. Eu espero que isso não passe de mais uma encenação da banda feita sob medida para acalmar um público mimado, mas em todo caso estou descuidando de meu terçol para garantir minha ausência novamente.

Nota: zero.

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Desgastado e fora de forma, o boneco Eddie circula pelo palco sem saber para onde ir e acaba tropeçando por cima da bateria, que pára de funcionar. Na platéia, ninguém notou qualquer diferença na música. O clique carnavalesco é de Messias Jardan.

* Cruzmaltino Bandeco tem 53 anos e é crítico de música e cinema há 22. Publicou, nos anos 70, diversas reportagens sobre as pornochanchadas que não pôde assistir. É autor de quatro ensaios sobre o prêmio “Kikito de Ouro” e do livro de contos “Memórias do Mercadinho”. Sofre abusos sexuais de seu tio Milton Osvaldo desde a adolescência.

Os filmes que eu não vi: Spider-Man 3

Wednesday, May 16th, 2007

Por Cruzmaltino Bandeco

De tempos em tempos, a sétima arte é acossada por modinhas que logo se tornam manias e, da noite pro dia, desaparecem sem deixar vestígios. Foi assim com os musicais dos anos 70, os filmes adolescentes dos anos 80, as trilogias intermináveis dos anos 90 e, mais recentemente, com as transmutações de rabiscos em produções hollywoodianas — como atestam os amadores 300 e Sin City. Em um terreno tão pouco fértil em talentos ou idéias, não surpreende que sejam ambos do mesmo Frank Miller, um rei em terra de cegos.

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Os filmes que eu não vi: 300

Tuesday, January 30th, 2007

Por Cruzmaltino Bandeco

Recebi no mês passado um prestigioso convite para participar da exibição fechada e restrita de “300”, a mais nova adaptação dos trabalhos do chargista Frank Miller. A premiere, que ocorreu em um cassino nos EUA, contou com a participação de críticos renomados no mundo inteiro. Recusei o convite, entretanto, porque não sei falar inglês e fui informado de que o filme não seria dublado. Melhor assim. Pelo que conversei mais tarde com Seva Prahbu, crítico do teatro indiano com quem mantenho correspondência há anos, o filme é um desastre.

Boa parte da publicidade em torno de “300” faz referência a um de seus atores, Rodrigo Santoro. Pra quem não se lembra, Santoro é um brasileiro que se exilou em Hollywood para fugir da perseguição de crítica e público tupiniquins — ninguém o tolera. Desconfio que, em breve, precisará fugir dos Estados Unidos também. O tititi a respeito do filme tem pouco a ver com o suposto talento de Santoro: manchetes espalhadas em revistas e sites sobre a sétima e maltratada arte exaltam tão-somente a maquiagem que deixou o ator “irreconhecível”. O que é isso, uma piada? Até onde eu sei Rodrigo Santoro nunca foi reconhecido em lugar nenhum. Não é à toa que ele surge agora fantasiado de rei persa: trata-se de artimanha cínica para chamar atenção.

Em “300”, Rodrigo Santoro interpreta o tirano Xerxes, que como todo tirano precisa invadir algum país e decide que vai ser a Grécia. Um grupinho de apenas trezentos soldados espartanos, entretanto, consegue conter a fúria do ataque. É isso mesmo que você leu. Mais uma vez, Hollywood tenta nos enfiar goela abaixo uma de suas mirabolantes ficções de guerra, talvez fruto da relação mal resolvida com o Vietnã. Seva Prahbu, meu amigo indiano, ficou irritado desde que teve conhecimento dessa sinopse absurda e só não perdeu a paciência durante a exibição do filme porque ficou praticando ioga.

Apesar da irritante atuação de Rodrigo Santoro — o que não é novidade —, não se pode negar que o rapaz é esforçado. De novelas meia-boca a seriados pretensiosos sobre gente que desaparece em ilhas, passando pelo cinema mudo, já se exercitou em praticamente todas as modalidades possíveis no cinema e na televisão. E, como sabemos, jamais emplacou em qualquer uma delas. Mas já que, aparentemente, ele vai insistir na teimosia, seria uma boa idéia ele se manter irreconhecível em seus próximos trabalhos. Assim, pelo menos, ele nos poupa um grande aborrecimento.

Nota: zero.

Teste seus conhecimentos

Você reconhece Rodrigo Santoro nas imagens abaixo? Utilize os comentários para participar. As respostas corretas serão publicadas na próxima edição desta coluna. Os acertadores concorrerão a um lindo brinde.

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a) A tímida Betty, em Betty, a Feia
b) O capanga Charlie em As Panteras
c) A depravada Michelle em Rebeldes
d) O lunático Tonho da Lua em Mulheres de Areia

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a) O descontrolado Gaunter, em Fuga de Nova York
b) O descriminado Jamal, em Miami Vice
c) O descontraído O. J., em Lost
d) O destemido Darth Vader, em Guerra nas Estrelas

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a) O tirano Xerxes, em 300
b) O bonachão Lineu, em A Grande Família
c) O tarado Alemão, no BBB7
d) O dançarino Huwei, em Na Cama com Madonna

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a) O presidiário Lady Di, em Carandiru
b) O filho pródigo Sony, em O Poderoso Chefão
c) A rainha Priscilla, em Priscilla, a Rainha do Deserto
d) O jovem Mocotó, em Malhação

As estrelas que não brilharam

Sunday, November 5th, 2006

Por Cruzmaltino Bandeco

Recebi estes dias por e-mail o vídeo abaixo. Pretensamente entitulado “Estrelas antes de se tornar estrelas”, exibe cerca de dez minutos de imagens ultrapassadas dos primeiros trabalhos de atores e músicos que hoje se consideram importantes. Trata-se, na verdade, de um catálogo de filmes de má qualidade e comerciais de produtos fracassados protagonizados por gente de terceiro escalão, como John Travolta, Catherine Zeta-Jones, Brad Pitt entre outros anônimos. Gente que nunca mereceu mais que notas de rodapé nos cadernos culturais. Se o vídeo pretendia trazer à tona curiosidades a respeito dos passados desse povo, tudo o que conseguiu foi nos brindar com a certeza de que eles jamais deveriam ter chegado ao presente com o rótulo de “artistas”. John Travolta, por exemplo, exibe desde cedo o rebolado que levou Hollywood a chamá-lo de astro. Lá na minha terra chamam isso de outra coisa. Nota: zero.

Os artistas que eu não conheci: Renato Russo

Wednesday, October 11th, 2006

Por Cruzmaltino Bandeco

Quarta-feira, 11 de outubro de 2006. Hoje se comemoram 10 anos da morte de um dos artistas brasileiros mais polêmicos e badalados, Renato Russo. Um artista que, por falta de tempo, eu nunca conheci. Renato Russo apareceu ainda nos anos 80 — o período da história que todos fazemos questão de esquecer — e já naquela época dava sinais de cansaço, apatia e despreparo musical. Embora nunca tenha ouvido suas músicas e não conheça nenhuma de suas composições, durante anos fui obrigado a ouvir comentários de fãs do cantor. Essa gente até hoje me persegue. Vez por outra, numa reunião entre amigos, um deles sai correndo e volta com um violão. “Vou tocar uma do Legião”, ameaça. É quando eu vou embora pra casa sem me despedir.

Independente da irrelevância de Renato Russo para a música brasileira, é de bom tom fazer um levantamento do que aconteceu nesses dez anos sem ele. Pra falar a verdade, pra mim não aconteceu nada. Mas conversei com algumas pessoas que conheciam o trabalho dele. Vejamos algumas dessas histórias.

Adriana, 24 anos, minha amiga do curso de inglês. Ouviu Renato Russo pela primeira vez aos nove. Ficou assustada quando o viu no palco, em um show, pulando de um lado pro outro. “Parecia o Mick Jagger com câimbra”, diz. Nunca entendeu suas letras, embora concorde que elas sejam tão tolas que uma criança do primário poderia escrever qualquer música da Legião Urbana. “Renato Russo parecia mais intelectual pelos óculos do que pela música”, acredita ela. “Agora, se você não estivesse escrevendo sobre isso, eu não ia lembrar que faz dez anos que ele morreu”.

Silvaldo, 32 anos, porteiro do meu prédio. Acostumou-se a ver os adolescentes do prédio reunidos no playground com um violão desafinado cantarolando músicas de Renato Russo. Para ele, as músicas eram todas iguais. Chatas na melodia, chatas na letra, chatas nos fãs. “Dava mais raiva ainda porque ninguém sabia cantar a música toda. Mas quando chegava no refrão era aquela gritaria, ‘há teeeeempooooossssss’, enchia o saco”, diz Silvaldo, leitor assíduo da crônica policial. “Menos mal que depois ia toda molecada fumar maconha, ficava doidona e ia dormir. Aquele cara morreu, foi? Esses roqueiros são tudo maconheiro.”

Elias Alex, idade não revelada, taxista. Converso com Elias quase todos os dias — é daqueles taxistas que não pára de falar um minuto e tem sempre opinião sobre qualquer assunto. Perguntei a ele se sentia falta do Renato Russo. Pela primeira vez desde que o conheço, Elias Alex ficou em silêncio. Imaginei que estivesse prestes a soluçar, com saudades do ídolo que se foi. Mas, depois de passar por uma lombada, Elias retrucou: “Quem é? É político, é? Conheço não senhor”. Elias Alex é mais um dos milhões de brasileiros para quem Renato Russo não passa de apenas um nome estranho. É sempre assim com quem fala demais por não ter nada a dizer.

Nota: zero.

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Thomas Pandolfo, 24 anos, ganha a vida como sósia de Renato Russo. Vestido a caráter, imita sua voz e seus trejeitos e ainda se arrisca compondo canções para homenagear o ídolo. Recentemente, foi alvo de protestos durante uma de suas exibições num colégio em Mossoró. Estudantes protestaram contra sua atuação arremessando sandálias e posteriormente espancando Thomas. Apanhou tanto que ficou inconsciente. “As pessoas não entendem meu trabalho, assim como não entendiam o do Renato. O episódio fez com que eu me identificasse ainda mais com ele”, afirma. O clique melódico é de Messias Jardan.

Os jogos que eu não assisti: Brasil 1 x 0 Croácia

Thursday, June 15th, 2006

Por Cruzmaltino Bandeco

Se tem um esporte no qual eu não vejo a menor graça é o futebol. Nunca entendi bem as regras e, pior ainda, jamais compreendi a empolgação do povo com competições caça-níqueis como a Copa do Mundo. Ainda assim, o Ressaca Moral me enviou como correspondente esportivo para a Alemanha. Perda de tempo. Tão logo meu avião fez escala em Portugal, me refugiei em um hotel no centro da cidade, de onde acompanho à distância o tedioso percurso da Seleção Brasileira. Infelizmente, nem isso me manteve imune aos torcedores brasileiros. Como praga, infestam a terra de Camões. Velhas camisas amarelas, gritaria desnecessária e bebedeira exagerada são a tônica da torcida canarinho.

Não assisti ao jogo Brasil versus Croácia porque o hotel onde me hospedei não tem televisão. E, como já esperava, não perdi absolutamente nada de interessante. Assim que a partida terminou, saí às ruas para conversar com brasileiros que comemoravam entusiasmados uma magra vitória contra o time europeu do qual eu nunca ouvira falar. Pelo que ouvi dos meus interlocutores, foi um jogo chato e tedioso. Exatamente como sempre foi o futebol.

Maria, uma dentista brasileira que reside em Portugal clandestinamente, berrou várias vezes que “já sabia”. Ora, bolas. Se já sabia, por que perdeu tempo assistindo o jogo? Difícil entender. Seria esse um indício de marmelada? Já Miguel, pedreiro vindo da Paraíba, me disse que “se Ronaldo não estivesse tão gordo o Brasil teria feito mais gols”. Se é assim, por que não escalam um time de anoréxicos?

Torcer pelo Brasil em uma Copa do Mundo é muita falta do que fazer. O Brasil nunca teve tradição no futebol, e a maior prova disso é que todos os jogadores brasileiros com alguma qualidade vão embora pra Europa. Lá, sim, têm oportunidade de praticar o esporte com quem entende do assunto. Por aqui pela América do Sul, a salvação parece ser mesmo a Argentina. Até quem não gosta de futebol, como eu, se encanta vendo gente como Maradona ou Caniggia jogar. E olha que eu nunca vi.

Nota: zero.

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Suzi Cremucho e Flavinho começaram a preocupar suas famílias quando se tornaram emo e montaram a banda “Super Miguxos”. Na tentativa de trazê-los de volta à realidade, seus pais lhes mandaram à Alemanha para assistir a Copa do Mundo. Entediados, os dois venderam todos os seus ingressos e torraram a grana em um festival gótico na Bélgica. O clique bi-curious é de Messias Jardan.

Os filmes que eu não vi – O Código Da Vinci

Monday, May 29th, 2006

Por Cruzmaltino Bandeco

Com enorme estardalhaço, chegou esta semana aos cinemas o longa-metragem baseado no livro homônimo do escritor Dan Brown. Ponto. E isso é tudo o que se pode dizer de agradável a respeito deste filme. Se, em geral, livros costumam ser melhores que suas adaptações para o cinema, temos aqui um caso bastante específico: livro e filme são ambos tão ruins que é impossível dizer qual é o pior. Na dúvida, fuja dos dois. Não pude assistir “O Código da Vinci”, mas seu Zé Maria, que fez a pintura externa aqui do meu prédio – e por isso entende tudo de pintores – assistiu e ficou chocado. Não exatamente com a história ou com as revelações que Dan Brown promete, mas com o preço do ingresso. Seu Zé Maria pagou caro demais para ser torturado em uma cadeira de cinema.

“O Código da Vinci” fala de supostos segredos do cristianismo que teriam sido guardados durante séculos e que o autor Dan Brown, que deve se achar um gênio, desvendou analisando as obras de Leonardo Da Vinci, pintor que ocupa uma nota de rodapé na História e cujo trabalho mais expressivo foi o de uma moça sem expressão. Francamente, quanta bobagem. Fazer barulho por causa de segredos de dois milênios é muita falta do que fazer. Se até crimes prescrevem com alguns anos, quem está interessado em saber o que um pintor desconhecido tem a dizer sobre a vida de Maria Madalena? Vai ser fofoqueiro assim no inferno.

Para embasar suas fofocas, Dan Brown recorre a uma mistura um tanto quanto indigesta: religião e arte – assuntos que nunca tiveram absolutamente nada a ver. O expediente espertinho dá a Brown tranqüilidade para afirmar, na maior cara de pau, detalhes a respeito da vida de Jesus e Maria Madalena a partir de um quadro irrelevante, a Santa Ceia. Se Da Vinci teve seus quinze minutos de fama justamente por causa da Mona Lisa – que sorri muito e não diz nada –, tirar qualquer conclusão a partir de sua obra é, no mínimo, charlatanismo.

Como já não bastasse o autor ser um malandro e a história uma bomba, o protagonista do filme é um ator de péssima reputação. Tom Hanks, que aguarda ansiosamente pelo sucesso desde “Um Dia a Casa Cai”, tropeça mais uma vez. Força, Tom, um dia você chega lá. Com um penteado que lembra uma peruca com gel vencido, repete a mesma atuação desastrosa que só não o baniu definitivamente da sétima arte porque sempre existirá um Dan Brown disposto a cometer qualquer atrocidade para chamar atenção – até mesmo escalar Tom Hanks para o papel principal.

Se Dan Brown tinha a intenção de conquistar o mundo futricando a vida alheia se escorando em Leonardo Da Vinci, falhou miseravelmente. Com suas lorotas, não foi capaz de animar nem sequer seu Zé Maria, um homem simples que nunca tinha ido ao cinema – e jura que não volta nunca mais. Seu filme está fadado ao mais vergonhoso fracasso. Só há um segredo de fato a ser revelado nessa história: que tipo de gente dá ouvidos a um chato como Dan Brown?

Nota: zero.

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Na pacata Mossoró (RN), Plínio Frederico Suassuna Magalhães, proprietário de um dos maiores cinemas locais, faz de tudo para convencer o público a assistir “O Código Da Vinci”. Momentos após este clique histórico de Messias Jardan, Plínio foi atropelado por quatro espectadores que exigiam seu dinheiro de volta.

As turnês que eu não assisti – U2 Vertigo 2006

Wednesday, March 1st, 2006

A Irlanda está para o resto da Europa mais ou menos como o Sergipe para o resto do Brasil: você nunca ouve falar daquele lugar, não conhece ninguém que venha de lá, não sabe onde fica e, para sua sorte, jamais precisará visitá-lo. Em suma, assim como o Sergipe, a Irlanda é um lugarejo desconhecido em que nada de interessante acontece e qualquer nova fofoca nas redondezas vira assunto para meses a fio —

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Bono, sem desconfiômetro, flagrado por
Messias Jardan enquanto molestava uma garota

um mal entendido entre um vizinho católico e outro protestante que aconteceu há séculos rende conversa até hoje. Talvez por isso o surgimento de uma bandinha insossa de rock tenha feito tanto estardalhaço. Ao reunir um cantor desafinado com instrumentistas de segunda mão, a banda U2 ganhou a Irlanda e, não satisfeita com os quinze minutos de fama em seu bairro, resolveu atacar o resto do mundo com uma turnê desqualificada. Aproveitando o farto apetite do brasileiro por coisa ruim, os irlandeses vieram parar no Brasil, levando o caos para a já caótica cidade de São Paulo.

Não pude assistir os shows do U2 pois no período em que eles aconteceram eu estava de repouso devido a uma cirurgia para tratar minha catarata. Melhor assim. Pelo que andei vendo na televisão sobre as apresentações ambas foram um fiasco. Assunto muito mais interessante que os shows da banda foi a confusão que o vocalista Bono Vox causou na vida da impronunciável Katilce, garota que deu o azar de estar no lugar errado e na hora errada. Ao subir ao palco e trocar carícias com Bono, Katilce viu sua vida matrimonial ser abalada e seu sossego acabou. A trajetória de fã anônima a beijoqueira por que passou Katilce mostra que o U2 não produz apenas músicas ruins: também causa estrago na vida pessoal de seus poucos fãs.

Isso sem falar nas idéias estapafúrdias que o grupo propaga através de suas composições. Nunca tive o desprazer de ouvir nenhuma delas, mas só por seus nomes já dá pra ter uma idéia do baixo nível. Há desde a incitação explícita à violência em pleno domingo (“Sunday Bloody Sunday — Domingo sangrento domingo”) até a constrangida admissão de que o grupo é formado por um bando de velhos inúteis que não sabem o que querem da vida (“I Still Haven’t Found What I’m Looking For — Eu ainda não encontrei o que estou procurando”).

Como se os dois shows destes desocupados não fossem o bastante, Bono, ao invés de voltar para sua Sergipe européia, preferiu ficar por aqui aporrinhando o povo brasileiro por mais uma semana inteira. Encontrou-se com o presidente Lula justamente quando este estava sem beber havia 40 dias — ou seja, não tinha nem como se esquivar da encheção de saco de Bono. Com tanta criança precisando de comida, doou uma guitarra de fundo de quintal para o programa Fome Zero. E, por fim, foi pular o carnaval em Salvador, onde encontrou o ministro-cantor Gilberto Gil e lhe confidenciou um desejo: pretende voltar ao Brasil “como anônimo”. Ora, Bono. Nem precisava pedir. Pelo menos pra mim, você sempre foi um completo desconhecido.

Nota: zero.

c.bandeco.jpg Cruzmaltino Bandeco tem 53 anos e é crítico de música e cinema há 22. Publicou, nos anos 70, diversas reportagens sobre as pornochanchadas que não pôde assistir. É autor de quatro ensaios sobre o prêmio “Kikito de Ouro” e do livro de contos “Memórias do Mercadinho”. Sofre abusos sexuais de seu tio Milton Osvaldo desde a adolescência.

Os livros que eu não li “O mundo não é chato — Caetano Veloso”

Tuesday, November 8th, 2005

C. Bandeco*

Uma das coisas que eu nunca entendi nos meus muitos anos de experiência como crítico é: pra que serve o Caetano Veloso? Desde suas primeiras aparições, em trajes, trejeitos e cabelos bizarros, tenho um pé atrás com ele. Não me lembro de absolutamente nada que ele tenha feito de interessante para a humanidade. São quarenta e cinco anos de encheção de saco e tentativas exacerbadas de chamar atenção. E, se você pensava que o ponto mais baixo de sua carreira era a regravação de músicas de Michael Jackson, não sabe o que está por vir.

Não pude ler “O mundo não é chato” porque uma clepsidra congênita no meu braço me impede de carregar um livro por mais de dez segundos. Mas minha tia Helga, que passa o dia na rede comendo acarajé e, por isso, entende tudo de coisas baianas, leu e me contou o que achou da obra.

Segundo a tia Helga, o livro é extremamente ruim. Como tudo o que Caetano Veloso produz. Já começa mal pelo título, de insuportável arrogância. Quem é Caetano Veloso para opinar sobre o mundo, se nem se vestir direito ele sabe? Antes de vir a público dizer o que pensa sobre o mundo, Caetano deveria procurar saber o que o mundo pensa a seu respeito. Com um pouco de vergonha na cara, se exilava na Groenlândia e nos deixava em paz.

Além de antipático, ouvir Caetano Veloso dizer que o mundo não é chato soa cínico e pedante. Afinal de contas, sozinho ele é responsável por quase metade da chatice produzida do mundo. Descontando sua existência, no entanto, de fato, o mundo não é chato. Mas esse livro é.

Nota: zero.

* Cruzmaltino Bandeco tem 53 anos e é crítico de música e cinema há 22. Publicou, nos anos 70, diversas reportagens sobre as pornochanchadas que não pôde assistir. É autor de quatro ensaios sobre o prêmio “Kikito de Ouro” e do livro de contos “Memórias do Mercadinho”. Sofre abusos sexuais de seu tio Milton Osvaldo desde a adolescência.

Os documentários que eu não vi — Coleção Chico Buarque (3 DVDs)

Tuesday, November 1st, 2005

C. Bandeco*

Depois de anos compondo músicas que ninguém agüenta ouvir, Chico Buarque lançou recentemente um documentário que fala sobre sua vida entediante. O documentário está dividido em três DVDs: “Meu Caro Amigo”, “À Flor da Pele” e “Vai Passar”. Não pude assisti-los porque meu videocassete só aceita fitas Betamax. E mesmo que aceitasse DVDs, eu jamais teria paciência para assistir qualquer história que precise de três volumes pra ser contada. Dei o documentário de presente para Dona Dolores, minha cozinheira. Ela não perde o Linha Direta e, por isso, entende tudo de vídeos que falam da vida dos outros. Acho que ela não gostou.

Analfabeta, Dona Dolores reclamou que não entende o que Chico Buarque diz. Nem eu. Pudera. Não consigo classificar sua obra como música “popular” brasileira. Popular, pra mim, é quem eu consigo compreender. Chico Buarque usa palavras difíceis e construções complicadas. Chamar atenção para a forma é artifício típico de quem não tem nenhum conteúdo. Ouvir música com uma gramática nas mãos é o fim da picada. Chico Buarque brinca com as palavras como criança brincando com a comida. Ou seja, estraga tudo o que escreve.

Dona Dolores é bastante religiosa. Ficou chocada ao ouvir Chico Buarque cantar como se fosse uma moça. Dona Dolores é idosa e garante que “já viu muita coisa nessa vida”, mas nunca esperou ouvir um “moço tão bonito de olhos verdes” cantar coisas como “ah, esse cara tem me consumido” ou “eu sou menina e ele é o meu rapaz”. Dona Dolores acha que aí tem dedo do coisa-ruim. Alguns dizem que Chico entende a alma da mulher. Em Mossoró, chamam isso de outra coisa.

Em tempos tão sombrios para a música brasileira, quando uma Maria Rita da vida lança seu disco impunemente e jovens desempregados semeiam o pânico tocando músicas do Djavan em bares, Chico Buarque se torna uma terrível ameaça. Em suas centenas de milhares de canções existe um verdadeiro arsenal de más influências para nossa juventude. Ouvir Chico Buarque me deixa à flor da pele. Meu consolo é saber que um dia essa modinha vai passar.

Nota: zero.

* Cruzmaltino Bandeco tem 53 anos e é crítico de música e cinema há 22. Publicou, nos anos 70, diversas reportagens sobre as pornochanchadas que não pôde assistir. É autor de quatro ensaios sobre o prêmio “Kikito de Ouro” e do livro de contos “Memórias do Mercadinho”. Sofre abusos sexuais de seu tio Milton Osvaldo desde a adolescência.