Archive for the ‘Cruzmaltino Bandeco’ Category

Os discos que eu não ouvi: “Maria Rita — Segundo”

Saturday, October 22nd, 2005

C.Bandeco*

Fui surpreendido ontem pela manhã por um pacote dos correios. Não me lembro de ter feito nenhuma encomenda, mas a caixa me deixou curioso. Dentro dela, um radinho sem alto-falantes e um folhetinho sugerindo pra que eu ouvisse a nova obra de Maria Rita dentro daquele aparelhinho. Não pude ouvir o disco da moça pois só escuto rádio no meu velho Philco Transglobe. Entreguei o radinho para o Rosivaldo, porteiro aqui do prédio, que adora abrir aparelhos eletrônicos pra ver como funcionam.

Rosivaldo foi um cara valente e ouviu o disco de Maria Rita. Quando ele conversou comigo sobre o assunto, fiquei satisfeito por ter ficado longe daquilo. Maria Rita deve ser a ovelha negra de Elis Regina — que não funcionou como cantora e transmitiu à filha o gene do fracasso. Em “Segundo”, Maria Rita insiste na fórmula que não deu certo no primeiro: melodias chatas e letras compostas por Marcelo Camelo. Música para anestesiar hipopótamo.

Quanto mais ouço falar em Maria Rita, mais irritado eu fico. Se algo faz sentido em seu trabalho, é o nome do disco. Um mero segundo é quanto dura a paciência de quem se arrisca a ouvi-lo.

Nota: zero.

* Cruzmaltino Bandeco tem 53 anos e é crítico de música e cinema há 22. Publicou, nos anos 70, diversas reportagens sobre as pornochanchadas que não pôde assistir. É autor de quatro ensaios sobre o prêmio “Kikito de Ouro” e do livro de contos “Memórias do Mercadinho”. Sofre abusos sexuais de seu tio Milton Osvaldo desde a adolescência.

Os filmes que eu não vi: “2 filhos de Francisco”

Thursday, October 20th, 2005

C.Bandeco

A música sertaneja está, indiscutivelmente, entre as mais chatas já produzidas no Brasil. Perde apenas do axé baiano, do funk carioca e do samba de ninar produzido por barbudos. Como se já não bastasse a invasão das rádios de ônibus e das trilhas sonoras de novelas, eis que agora os falsetes ameaçadores e os cortes de cabelo de péssimo gosto tomam de assalto a sétima arte.

Não pude assistir a “2 filhos de Francisco” por causa de uma impigem que ocupava quase metade do meu rosto. Mas a Dóris, uma colega da hidroginástica que é viciada em karaokês e, por isso, entende tudo de cantores desafinados, viu e me deu sua opinião. Eu pegarei quantas impigens forem necessárias para jamais assistir este filme.

Basicamente, ele narra a saga de dois moleques pobres que, forçados pelo pai, comiam ovo cru para aprender a cantar música sertaneja. Ponto. Não sei aonde esse pessoal de Hollywood quer chegar com essa história de comer ovo cru. Na melhor das hipóteses o infeliz que for influenciado por esta conversa fiada e resolver comer ovo cru no café da manhã vai pegar uma lombriga. No que depender de mim, quem quiser viver de cantar música de corno vai passar fome.

“2 Filhos de Francisco” tem um roteiro tolo, atores ruins e fotografia de má qualidade. Mas, sem sombra de dúvida, o destaque fica por conta da pior trilha sonora dos últimos tempos. Se o leitor for insistente ou por curiosidade mórbida for ao cinema assisti-lo, por favor leve alguns ovos. E acerte-os bem no meio da tela por mim.

Nota: zero.

* Cruzmaltino Bandeco tem 53 anos e é crítico de música e cinema há 22. Publicou, nos anos 70, diversas reportagens sobre as pornochanchadas que não pôde assistir. É autor de quatro ensaios sobre o prêmio “Kikito de Ouro” e do livro de contos “Memórias do Mercadinho”. Sofre abusos sexuais de seu tio Milton Osvaldo desde a adolescência.

Os discos que eu não ouvi: Los Hermanos – 4

Tuesday, October 4th, 2005

C.Bandeco*

Tenho ouvido por aí muita gente dizer que o grupo Los Hermanos reinventou a MPB. Eu vou mais longe e afirmo que eles inauguraram um novo estilo musical, a MPBD — Música Para Boi Dormir. Fazia tempo que ninguém aparecia com nada diferente na música brasileira. Com sua mistura de samba, pop e canção de ninar, o Los Hermanos trouxe uma verdadeira revolução. Infelizmente, no entanto, em vão.

Não pude ouvir o novo álbum da banda porque meu aparelho de som só toca LPs. Pedi então ao meu sobrinho Tobias — que fez aulas de tango e por isso entende tudo sobre hermanos — que o escutasse e compartilhasse suas impressões. Não ouví-lo foi o melhor que eu podia ter feito. Tobias me garantiu que o disco é detestável, do início até onde ele se manteve acordado. Se você já conhece produções anteriores da banda, não perca seu tempo: 4 é de uma ausência criativa impressionante.

A falta de criatividade começa estampada na capa. Quando uma banda não encontra nenhum nome melhor para seu conjunto de composições, recorre a um algarismo. A Legião Urbana fez isso quando lançou o V. Maria Rita recentemente produziu o Segundo. Ambos disfarçaram recorrendo a um algarismo romano ou ordinal, subterfúgio cínico para quem não tem nada a dizer em bom português. No caso do Los Hermanos, não há sequer uma desculpa. Quatro são os pontos cardinais e os dedos da mão do presidente. Fora isso, um valor que não expressa absolutamente nada de útil.

Um dos únicos pontos positivos de ouvir Los Hermanos é que eles nos fazem lembrar de como era boa a música antes de sua chegada. Afinal de contas, barbudos desleixados tocando guitarras distorcidas não combinam nem um pouco com música para funeral. Analisando as coisas por esse lado, com um pouco de esforço podemos associar o título 4 a uma figura geométrica, o quadrado. Sem dúvida, a melhor definição para o grupo.

Nota: zero.

* Cruzmaltino Bandeco tem 53 anos e crítico de música e cinema há 22. Publicou, nos anos 70, diversas reportagens sobre as pornochanchadas que não pode assistir. É autor de quatro ensaios sobre o prêmio Kikito de Ouro e do livro de contos Memórias do Mercadinho. Sofre abusos sexuais de seu tio Milton Osvaldo desde a adolescência.